Em Vitória da Conquista, a emergência do clima não é assunto distante: ela está na tarde que ferve no alto dos quase 900 metros do planalto, na estiagem que castiga a zona rural por temporadas inteiras e no temporal que, quando chega, desaba de uma vez sobre a Baixada do Jurema e os fundos de vale da periferia.
Neste raio-x do território, o Conquista Repórter e a doClima reúnem 46 anos de dados públicos sobre a temperatura, a chuva, as emissões de gases de efeito estufa, a vegetação e os desastres do município. Cada gráfico nasce de uma base oficial.
A temperatura máxima média de Vitória da Conquista subiu 1,0 °C em 46 anos. O dia esquenta +0,22 °C por década, enquanto as madrugadas seguem estáveis (+0,01 °C). Os dias de calor extremo, que quase não existiam nos anos 1980 e 1990, viraram rotina. Em 2019, o município bateu o recorde com 234 dias acima do padrão histórico.
Por que isso importa. O aquecimento chega ao cotidiano como tarde mais quente, madrugada abafada e onda de calor mais frequente. Cada fração de grau pesa primeiro sobre quem tem menos – idosos, crianças e quem trabalha exposto ao sol nas feiras e na roça –, sobrecarrega a rede elétrica com ventilador e ar-condicionado e castiga lavoura e rebanho. O termômetro conquistense é a versão local de um fenômeno planetário: o mundo já aqueceu cerca de 1,4 °C desde a era pré-industrial, e a cidade acompanha esse ritmo.
Alta da máxima média, estatisticamente significativa. O aquecimento é de fundo, sob a oscilação natural de cada ano.
O calor do meio-dia avança década após década, enquanto as madrugadas mal se moveram em 46 anos. É a temperatura da tarde que mais pressiona a saúde, o consumo de energia e a produção rural.
O percentil 90 é a temperatura que só foi superada em 10% dos dias do período de referência. Na prática, conta como dia de calor extremo aquele mais quente do que 9 em cada 10 dias que Vitória da Conquista viveu historicamente.
A série começa com 73 dias no ano 2000 e não para de subir: 2015 e 2019 romperam a barreira dos 200, com pico de 234 dias, e a década atual roda consistentemente acima de 140. O calor extremo virou rotina.
A chuva em Vitória da Conquista vem diminuindo: são cerca de 4,3 mm a menos por ano, uma queda acumulada de 191 mm em 45 anos. Os períodos chuvosos também estão mais irregulares: dez dos últimos 12 anos terminaram abaixo da média. Em 2019, o ano mais seco, choveu 466 mm; já em 1985, o mais chuvoso, foram 1.468 mm. Uma diferença superior ao volume de chuva que costuma cair em um ano inteiro.
Por que isso importa. Clima mais quente desarruma o ciclo da água: a atmosfera aquecida evapora mais, alonga a estiagem e concentra o que chove em pancadas curtas e violentas. Em Vitória da Conquista, menos chuva ao longo do ano aperta o abastecimento, a energia e a lavoura; quando a água volta de uma vez, é enxurrada. É o paradoxo do “seca mais, alaga mais”, duas faces do mesmo desequilíbrio. E a pouca água que resta chega maltratada: o Rio Verruga, que nasce na cidade, no Poço Escuro, corre sob o Centro coberto de esgoto e lixo — apontado como um dos rios mais poluídos do país.s
Barras abaixo de zero (laranja) são anos mais secos que a média. A inclinação para baixo confirma a perda de chuva no longo prazo.
O regime é fortemente sazonal: os cinco meses de maio a setembro mal somam 117 mm, enquanto novembro a janeiro concentram mais da metade da chuva do ano, o que torna a estiagem e os veranicos mais críticos.
Em 2023, Vitória da Conquista lançou 1,22 milhão de toneladas de CO₂ equivalente na atmosfera. Isso significa cerca de 3,3 toneladas por habitante, menos de um terço da média brasileira, de aproximadamente 11 toneladas, e metade da média mundial, de 6,6 toneladas. Os dados são do Observatório do Clima (SEEG), Banco de Dados da Comissão Europeia (EDGAR) e do Global Carbon Project.
Ao contrário do que ocorre em grandes capitais, as emissões de carbono conquistense vêm de dois lados: da cidade e do campo. A energia responde por 34% do total e, dentro desse setor, o transporte rodoviário é responsável por 85%. Na prática, quase 3 de cada 10 toneladas de gases de efeito estufa emitidas no município vêm dos veículos.
Outra principal fonte está na zona rural: 29% das emissões estão ligadas à mudança no uso da terra, como desmatamento e queimadas, e 24% vêm da agropecuária. Os resíduos representam os 13% restantes.
Por que isso importa. Os gases de efeito estufa são o motor do aquecimento, e cada emissão tem endereço. Em Vitória da Conquista o endereço é duplo: mexer no transporte (transporte público, combustível, mobilidade) ataca a maior fatia urbana; conter o desmatamento e o fogo no campo derruba a fatia rural. É uma agenda que se cruza com o ar que o conquistense respira e com a conta de combustível de cada família.
O transporte rodoviário é a maior alavanca urbana: reduzir emissões na cidade passa, antes de tudo, por como as pessoas se locomovem.
Entre as cidades médias baianas, a diferença não está apenas no tamanho das emissões, mas também de onde elas vêm. Feira de Santana (1,21 Mt) emite quase o mesmo que Conquista, mas tem um perfil mais urbano: cerca de 55% das emissões vêm do setor de energia. Já Ilhéus (0,65 Mt) e Itabuna (0,46 Mt), no litoral cacaueiro, têm uma parcela maior das emissões ligada ao uso da terra, como desmatamento e mudanças na vegetação.
O contraste é ainda maior no Oeste baiano. São Desidério (8,4 Mt), Jaborandi (5,9 Mt) e Barreiras (5,0 Mt), na fronteira agrícola do MATOPIBA, emitem de quatro a sete vezes mais que Conquista, principalmente por causa do desmatamento do Cerrado.
Vitória da Conquista ocupa uma posição intermediária: as emissões vêm tanto da cidade quanto das atividades rurais. Entender qual setor mais pesa em cada município ajuda a identificar onde estão os principais desafios para reduzir as emissões.
Esse cenário pode ser observado no explorador do Conquista Repórter, que apresenta o perfil de emissões dos 24 municípios do Sudoeste Baiano, setor por setor, permitindo comparar Vitória da Conquista com cidades vizinhas.
Em 1985, Vitória da Conquista tinha 200,9 mil hectares de vegetação nativa, boa parte formada pelo cerrado que caracteriza o planalto. Quatro décadas depois, em 2024, restavam 122,4 mil hectares, representando uma redução de 39%.
No mesmo período, a área urbana mais que triplicou, passando de 3,4 mil para 12 mil hectares. A pastagem também ganhou espaço e hoje ocupa 36% do território do município, sendo o principal uso do solo.
A vegetação que volta a crescer ajuda a recuperar parte da área perdida, mas não é suficiente para compensar o desmatamento. Em 40 anos, o município teve uma perda de 52,4 mil hectares de vegetação nativa, uma área equivalente a mais de 70 mil campos de futebol.
Por que isso importa. Vegetação e clima são a mesma engrenagem. A mata guarda carbono, segura a umidade do solo, protege as nascentes, como a do Verruga, no Poço Escuro, e alivia o calor da cidade. Quando ela vira pasto ou asfalto, o carbono volta para a atmosfera e o solo perde a capacidade de reter água, o que realimenta o aquecimento e a irregularidade das chuvas dos capítulos anteriores. Em Vitória da Conquista, perder verde hoje é assinar uma cidade mais quente e mais seca amanhã.
O MapBiomas mapeia o uso do solo por satélite desde 1985, por isso a série começa ali. Cada faixa é um tipo de cobertura: a vegetação nativa (verde-escuro) encolhe década após década, enquanto a pastagem e a agropecuária (ocre) avançam e a mancha urbana (terracota) cresce sem parar; a mata em recuperação (verde-oliva) devolve parte do que se perdeu, mas não o bastante. Dentro dessa mancha urbana, o módulo Urbano do MapBiomas mostra o outro lado: só 14,5% é verde e 36,6% está em área inundável (veja abaixo).
Dos quase 10 mil hectares construídos de Vitória da Conquista, o verde cobre apenas 14,5%. E há um dado que explica as manchetes de cada temporada de chuva: 36,6% da área construída, mais de 4,2 mil hectares, está sobre zonas naturalmente inundáveis. Encostas íngremes, por outro lado, quase não existem, representam apenas 0,2% do município.
Barras em proporção da área construída. Os critérios são do MapBiomas Urbano: zona de inundação é o terreno até 3 metros acima do curso d’água mais próximo, o fundo de vale que o rio ocupa quando enche; zona de transição é a faixa seguinte, entre 3 e 6 metros, que alaga só nas cheias maiores; encosta íngreme é a declividade acima de 30% (cerca de 17°), na qual o terreno sobe 30 cm a cada metro e o solo saturado tende a deslizar. Os 4,2 mil hectares sobre zonas inundáveis conversam direto com o capítulo 06: são a Baixada do Jurema, a Avenida Caracas e os fundos de vale onde os desastres hidrológicos batem primeiro. E o verde urbano é a ferramenta mais barata contra o calor do capítulo 01: cada praça e quintal arborizado desconta décimos de grau da tarde. Compare estes números com os dos vizinhos na aba Cidade do explorador.
O AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência e Tecnologia, estima a evolução dos riscos climáticos até 2050. O risco projetado é um indicador que demonstra o quanto o município pode estar vulnerável no futuro. A escala vai de 0 a 1, considerando três fatores: a intensidade da ameaça climática, o nível de exposição da população e a capacidade do município de se preparar e reagir.
Em Vitória da Conquista, os principais riscos projetados estão relacionados à saúde. A leishmaniose visceral aparece com índice de 0,94, considerado muito alto; as arboviroses, como dengue, zika e chikungunya, chegam a 0,81, também muito alto; e a leishmaniose tegumentar marca 0,77, nível alto. A projeção é de aumento desses riscos à medida que o clima do planalto fica mais quente e a umidade muda.
Também aparecem entre os principais riscos o estresse hídrico, com índice de 0,76, e a integridade do bioma, com 0,75 – ambos classificados como altos.
Por que isso importa. As projeções de risco ajudam a entender o que pode acontecer no futuro com base em dados oficiais. Na prática, funcionam para orientar investimentos hoje e evitar problemas amanhã. Em Vitória da Conquista, os dados colocam a saúde entre as prioridades mais urgentes da adaptação climática. Doenças transmitidas por vetores, como leishmanioses e arboviroses, avançam onde a temperatura fica mais quente e a umidade muda. Os impactos tendem a ser maiores nas periferias, onde faltam saneamento, infraestrutura e acesso adequado aos serviços de saúde.
O AdaptaBrasil MCTI é a plataforma oficial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que mapeia os riscos das mudanças climáticas nos municípios brasileiros. Cada índice vai de 0 a 1 e resulta do cruzamento de dezenas de indicadores organizados em três níveis: do risco geral (nível 1) até os componentes detalhados de ameaça, exposição e vulnerabilidade (nível 3). São projeções: cenários de probabilidade construídos a partir de modelos climáticos do IPCC, e não previsões exatas. Servem para orientar políticas de adaptação e priorização de investimentos. Os valores em destaque referem-se ao risco atual; as projeções de 2030 e 2050 seguem cenários de emissões. Metodologia completa em adaptabrasil.mcti.gov.br.
A Defesa Civil reconhece 37 desastres em Vitória da Conquista desde 1993, sem nenhuma morte oficial. A maioria – cerca de dois em cada três – é de estiagem e seca, o retrato do semiárido que cerca a cidade e que chega a atingir dezenas de milhares de pessoas de uma vez na zona rural. Mas quando o assunto é gente fora de casa, o vilão é a água: os nove eventos hidrológicos (enxurradas, inundações e chuvas intensas) respondem por quase todos os 8.459 desalojados da série – com destaque para a enxurrada de 2013 (5.320 desalojados) e as chuvas de 2021 (2.700). E o ritmo acelerou: só entre 2021 e 2024 foram seis desastres.
Por que isso importa. Desastre é a hora em que o clima vira manchete, luto e prejuízo. A seca aperta a lavoura e o abastecimento; a enxurrada arranca de casa quem vive no fundo de vale. As duas pontas conversam com o capítulo da chuva: um regime cada vez mais irregular alonga a estiagem e concentra o resto em temporais curtos e violentos sobre uma cidade que cresceu junto a canais e áreas alagáveis. Adaptar-se, aqui, é proteger primeiro quem mora na Baixada do Jurema, na Lagoa das Flores e nas margens do Verruga.
Cada risco deste painel já tem resposta conhecida e testada. São frentes que dependem de planejamento, orçamento e, sobretudo, de pressão pública para sair do papel.
Com a chuva recuando cerca de 191 mm em quatro décadas e o estresse hídrico em nível alto (0,76), ganham urgência a proteção de mananciais, o reúso de água, a recuperação de matas ciliares e a captação de água da chuva.
Os maiores riscos projetados são doenças sensíveis ao clima. A resposta passa por vigilância epidemiológica, saneamento, controle de vetores e eliminação de criadouros, com mais força no calor crescente.
A água é o que mais tira gente de casa, e 36,6% da cidade construída está em zona inundável. Drenagem sustentável, mapeamento e desocupação de áreas de risco e alerta antecipado reduzem o número de desalojados a cada temporada de chuvas.
Com a mata nativa 39% menor e o calor do dia subindo, a restauração florestal, a arborização urbana e a criação de áreas verdes combatem ao mesmo tempo as ilhas de calor e a perda de biodiversidade.
Reportagens da doClima, plataforma de inteligência climática por trás deste especial, sobre ideias curiosas e já testadas mundo afora.
Dado não muda nada sozinho, cobrança muda. Escolha para quem vai falar e sobre o quê: a ferramenta monta uma mensagem pronta, com os números desta reportagem e a fonte de cada dado, para você enviar à Prefeitura, à Câmara ou aos seus representantes no estado e na União.
Nenhum número desta reportagem foi inventado por nós: tudo é público, oficial e rastreável até a origem. O que a doClima fez foi reunir cinco bases que não conversam entre si — satélite de clima, inventário de emissões, mapeamento do solo, projeções de risco e registros da Defesa Civil —, recortar cada uma para o território de Vitória da Conquista, padronizar períodos e unidades, calcular as tendências de longo prazo e traduzir tudo em reportagem conferível. Cada dado leva de volta à base original.
Esta reportagem nasceu de dados abertos que existem para todo o país. No doclima.com.br você encontra o mesmo raio-x climático para os 5.570 municípios do Brasil: temperatura, chuva, emissões, floresta, risco projetado e desastres, sempre de fontes oficiais. A doClima é uma iniciativa de inteligência climática que transforma dados científicos em informação de utilidade pública, pronta para virar reportagem, política pública e cobrança.
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